Em 2000, apaixonei-me por um paulista.
Mas, como ele viajava constantemente, e eu me consumia em minha insegurança, deixei que se aproximasse de mim um então colega da rádio...
Um doce. Um virginiano obsessivo como eu. Um “bom menino”... Um companheiro irrepreensível.
Foi assim que meu namoro com Bruno teve início.
Ele, encantado por mim. Eu, apaixonada por outro.
Porque eu não conseguia ficar sozinha, porque era escrava da minha carência, porque precisava desesperadamente de companhia, de quem cuidasse de mim, de quem me “provasse” que eu ainda vivia, aceitei-o...
E o magoei, traí, machuquei, destruí.
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Você é amoroso, doce, meigo, educado, gentilíssimo: um principezinho encantado.
Você é bonito, é forte, ardente, desejável: um homem que há muito cobiço...
Mas, dentro de você...
Existe um monstro.
Você é autodestrutivo, inconstante, depressivo, indiferente.
Você – parece - não sabe ser amado.
Não consegue...
E eu, que tantos anos lutei para me libertar da patologia, assusto-me diante do espelho que você representa!...
Eu o temo e entendo!... Era tão parecida!
Assustadoramente parecida.
Louca!...
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Começo a entender.
Meu quarto marido, R., que era professor de capoeira, uma vez confidenciou a uma grande amiga minha:
“A Sheila tem um lado lindo!... Ela é meiga, carinhosa, amorosa, generosa, companheira!... Ela é muito especial!... Por isso, é inacreditável que ela tenha o outro lado!... Um monstro! Ela sai de controle, destrói tudo, detona tudo e todos, fere, agride, enlouquece!... Ela machuca quem quer que chegue perto dela! Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe da Sheila maravilhosa que existe dentro dela, sabemos que ela é 'outra' !... Por isso, é impossível odiar a Sheila; ela é maravilhosa!...
Mas é louca”!
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Por toda a minha vida, fui doentiamente perigosa!... Destrutiva, suicida, perdida, desesperada; andava em desatino, desvairada - gania!...
Erupções constantes em minha vida de dor, abandono e ódio faziam de mim uma “fera”... Uma criatura, pessoa perigosa; era sedutora, amável, receptiva - até começar a devorar o outro...
Não conseguia ser amada! Não sabia o que era isso. Por conseqüência, não fazia idéia do que fosse amar alguém – quem quer que fosse. Pais, filha, irmãs, amigos, homens... O máximo de contato que sabia estabelecer era por meio da sedução. E, mesmo isso, era “muito” para mim!
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Aquela mesma amiga se desespera: “Você precisa se afastar dele! Precisa acabar com isso”!
Não consigo.
Não quero.
Estou fascinada diante do espelho como presa ante a serpente.
Hipnotizada!...
Eu poderia ser facilmente arrastada para um poço de lágrimas, dúvidas, perguntas nunca ouvidas, lamentos, esperança...
Não serei. Eu conheço a patologia. Estou fascinada com sua beleza!... Com a aparência fascinante da loucura!...
Sou como rochedo, cume da montanha, pedra: onda, neve, neblina, você me atravessa e eu permaneço incólume; contudo, não posso me afastar!...
Você é capaz de arrebentar tudo, explodir, mandar pelos ares; permaneço segura, imóvel.
Uma solidez que nunca tive!...
Não sei até quando. Por ora, alimentada pelo deslumbramento da descoberta, fico.
Quero-o!... Eu posso ser "um porto seguro".
Resta saber se conseguirá permitir que eu permaneça.